Transmigração


Travestis Brasileiras em Portugal
É na sociedade global que as travestis encontram espaço para a vivência transnacional e comunitária das viagens trans. Brasil, Europa, cidade, prostituição e migração surgem como fatores chave para a sua disseminação geográfica e identitária. A rua tornou-se a sua nova casa e as outras travestis são agora a sua família.

Sinopse:

O século XXI acentuou a celeridade dos processos globalizantes e a densificação de tecidos urbanos repletos de contrastes. O mundo já não é a preto e branco e o anonimato trouxe consigo a cor sob a forma de diferença, que, enquanto experiência vivida, se tornou comunitariamente possível na cidade. Quebra-se na prática a uni-direcionalidade entre sexo e gênero ou entre sexo e sexualidade, enfrentando-se esquemas de pensamento enraizados. O paradigma máximo desta autonomia sistêmica alcança-se na construção de uma identidade travesti mutante, mutável e instável que acompanha um mundo profusamente povoado por fluxos intensos e interdependências várias. É na sociedade global que as travestis encontram espaço para a vivência transnacional e comunitária das viagens trans. Brasil, Europa, cidade, prostituição e migração surgem como fatores chave para a sua disseminação geográfica e identitária. A rua tornou-se a sua nova casa e as outras travestis são agora a sua família.

Fragmentos:

(...) "A São Paulo eu não queria voltar porque era muito problema e existia uma cidade perto que era Campinas. Fui para essa cidade, cheguei na cidade e lá tinha normas…para ficar na cidade tinha que fazer aplicação de 3 litros de silicone no mínimo com uma das cafetinas – aqui se diz chula – e se tinha que fazer uma conta no mínimo de R$ 1.500,00 – (fumando) – eu queria ficar para trabalhar, tinha que fazer essa conta para deixarem a “gente” trabalhar lá. Fiz a conta e fui fazer aplicação de silicone." (...)

(...) "Chegou uma época que começou a chegar amigas que queriam morar comigo e aí elas não gostaram (as cafetinas), acharam ruim e vieram falar para mim. Eu disse que eram só aquelas pessoas e que dali não saía mais, só que eu já estava cansada de rua…de muita coisa. Conheci um rapaz em Campinas que era muito temido lá! Não usava droga nem nada, mas era uma pessoa de atitude se tivesse que matar um, matava! E ele se interessou por mim e eu para poder ter um local tendo pessoas a trabalhar para mim, eu tinha que ter uma pessoa forte do meu lado!" (...)

(...) Adriana é uma das muitas que um dia se cruzou com Cris Negão. Após um episódio dramático em que as forças policiais brasileiras a ameaçaram deter por tráfico de droga (que não possuía) ou, em alternativa, ficar com todo o seu dinheiro (chantageando‑a) viu‑se novamente obrigada a recomeçar do zero, momento coincidente com a detenção policial do seu marido em Campinas. Estes dois acontecimentos estimularam uma nova migração, desta feita para Indianópolis, centro de São Paulo. “Quando eu vi aquele negão vindo na minha direção, meu coração bateu! Era Cris Negão!” Rapidamente Adriana ficaria a conhecer as regras daquele ponto na cidade e quem as fazia. “Ei! Pra ficar aqui tem que roubar! Bicha que não rouba, aqui não fica! Eu digo! Ai meu deus do céu!" (...)

(...) A mobilidade constitui‑se como um denominador comum às biografias recolhidas. É iniciada, desde logo, no Brasil. É na cidade grande que se encontram os meios para realizar as sofisticações da transformação corporal. Adriana queria andar 24 horas vestida de mulher e para tal tinha que recorrer a cirurgias. O objectivo era “fazer o corpo, queria as ancas, queria as coxas torneadas, não sei… seios grandes… queria estar mesmo uma mulher sempre! 24 horas que era para eu me sentir bem!” Tal objectivo não podia ser alcançado se permanecesse em casa e após muitos desentendimentos familiares e expulsão de casa é convidada por uma amiga com a qual mantinha afinidades eróticas e de práticas sexuais, para trabalhar em casa dela como cabeleireira. “Eu fiquei a trabalhar lá e de lá mesmo eu fiz meu local de trabalho que era salão de beleza." (...)

(…) "contei a situação para ela e ela disse – “ah não se preocupa não… fica aqui, amanhã tu desce para a rua…” – então isso para mim foi um horror…imaginar que eu tinha que descer para a rua… trabalhar… fazer programa… para ganhar dinheiro para fazer o que eu queria… fiquei pensando… meu deus… o que é que eu vou fazer? Fiquei ali pensando… eu não queria isso… não queria isso… que eu nunca fiz… não sabia nem como é que era… o que é que tinha que falar para as pessoas… só que a vontade que eu tinha de ter a transformação era tão grande e para mim saber que ia voltar a Belém sem nada, do jeito que estava… ia ser uma vergonha… dos dois lados… do lado que o pessoal de lá ia ver que eu voltei da mesma forma e outra coisa… eu me ia sentir mal… se eu fui para um local para conseguir algo… seria uma frustração para mim… e perguntei para ela – e dá para ganhar dinheiro? Ela disse que todas as que fazem aplicação de silicone o faziam com dinheiro da rua." (...)


(...) Também as travestis se enquadram neste perfil do migrante brasileiro que envia periodicamente remessas para o país de origem tendo como destino os familiares, maioritariamente “ ajudando” as mães. "Ajudo! Minha mãe, meus irmãos… é, a gente têm família, né? Sangue do sangue, não quero que ninguém passe necessidades! Aqui a gente não ganha muito, mas o pouquinho que a gente ganha aqui no Brasil é muito, né? O euro no Brasil são quase três vezes mais, quase três reais. Se eu junto € 1.000,00 são R$3.000,00." As remessas não só reestruturam afetos, como revitalizam relações familiares total ou parcialmente destruídas aquando da sua saída de casa, motivada por desavenças familiares originadas pela orientação sexual e expressão de gênero. (...)


Travestis Brasileiras em Portugal: percursos, identidades e ambiguidades
Autor: Francisco J.S.A. Luís
Editora: Chiado
Ano: 2018
Número de páginas: 332
ISBN: 978-989-52-3415-8

Fonte: Revista Conexão Literatura

2 comentários:

LuLu disse...

A very insightful post, I couldn't agree more, keep up the good work!

VenezuelaGayTrans disse...

travestis tenemos derechos humanos más allá del orgullo gay. Sin duda.