Major Sertório

Uma Rua de Contrastes

Major Sertório
Embora o texto tenha sido escrito em 2002, a vivência pessoal retratada em suas linhas continua atual para muitos moradores, trabalhadores ou trauseuntes anônimos de uma das ruas mais conhecidas da cidade de São Paulo. E mostra como a convivência com o diferente, pode muitas vezes superar barreiras e vencer preconceitos.


Por Marta Cavallini

Uma mulher fala incessantemente, de dia, de noite, de madrugada. Ela parece gostar de viver na rua, de fazer discurso, de declamar poesias, de mexer com as pessoas que passam, de provocá-las, de agredi-las. Suas palavras parecem não ter nexo, mas juntas formam um emaranhado de idéias inteligentes, revolucionárias, filosóficas, de quem aprendeu muito com a realidade dura das ruas de São Paulo e compreendeu que ali, para ela, é o melhor lugar para viver. Ela mora na Major Sertório.

Eu acordo com seus gritos, durmo com seus clamores. Eles invadem meu sono, meus sonhos. Passo perto dela, encaro seu olhar, espero um cumprimento, um aceno. Ela corresponde com um sorriso. E eu também. Nós nos respeitamos. Somos cúmplices de uma realidade dura, mas fascinante. Somos moradoras de uma rua de contrastes. Personagens distintos que vivem seus papéis, ora de coadjuvantes, ora de protagonistas. Vivemos numa rua encravada entre um centro nervoso e barulhento de um bairro de classe média alta, que se tornou palco preferido para travestis exibirem e venderem seus corpos.

Acabo descobrindo que, na verdade, essa mulher verborrágica e insandecida em sua serenidade já foi um travesti. Agora é mera observadora de suas companheiras. E eu também, de todas elas.

Sou cúmplice e voyeur desses profissionais da noite, que ganham a vida parados em frente ao meu prédio. Em minhas noites de solidão fico em minha sacada observando seus movimentos, seus gestos, trejeitos, suas táticas de sedução. Testemunho sua ansiedade à espera de seus clientes, de seu ganha-pão, de sua busca pela aceitação.

A rua se torna uma vitrine, com modelos vestidos com trajes extravagantes, insinuantes, mostrando partes estratégicas do corpo. A Major, enfim, se transforma numa arena, onde gladiadores lutam isoladamente por suas presas, usando seus corpos para desafiá-las, rendê-las e proporcionar-lhes o prazer que elas procuram. Quando, enfim, a troca é consumada, esses gladiadores voltam aos seus postos à espera de novos desafios.

Insultos e ofensas surgem. São ecos preconceituosos vindos de carros que passam pela vitrine e não gostam do que vêem. E esses mesmos gladiadores se vêem obrigados a defender sua profissão com dignidade. Às palavras preconceituosas eles respondem que sua escolha e seu destino não interferem em nada na vida de ninguém. Ali, à noite, é o lugar deles e de seus companheiros. Pára quem quer, experimenta quem tem coragem.

E é assim que se aprende a morar na Rua Major Sertório. Acaba-se compreendendo que todos ali têm um pacto de respeito mútuo. Aprende-se também a conviver com a luta travada diariamente por esses travestis, que são alvos de insultos, de batidas policiais, de constantes humilhações.

Aprende-se a embalar o sono muitas vezes ao som de brigas, entremeadas de gritos e de socos. E também a ouvir estrondos que podem vir de escapamentos de carros ou de revólveres. Mas prefere-se não saber a sua origem. A rua é de todos, afinal. E às vezes a realidade é dura demais para ser encarada de frente. Prefere-se, então, ignorá-la.

E a mulher ensandecida e verborrágica vaga pelas suas companheiras. Ri de tudo, mas não intervém. E eu vago no sexto andar do meu prédio, às vezes rindo, às vezes chorando. Não é fácil ter de encarar um palco de alegrias e tragédias do camarote do sexto andar.

O dia finalmente chega. Deixo o meu papel de coadjuvante para me tornar protagonista. A rua agora é palco dos ônibus, de pessoas indo trabalhar, almoçar. Ninguém parece se importar com o que aconteceu ali há poucas horas.

Um rastro de sangue aparece na calçada. Mas ninguém se importa. Agora a rua é das pessoas que ganham a vida de forma convencional, que se vestem de forma convencional e que preferem ignorar que ali, há um tempo atrás, aqueles gladiadores noturnos lutaram por sua dignidade, foram vencidos e derrotados, e que irão voltar, assim que o sol se puser, para mais um turno de trabalho.

A mulher ensandecida cochila na calçada. Às vezes acorda para provocar alguém ou para rezar. Sim, ela reza, em alto e bom tom. Por ela e por todos que passam. E pelas suas companheiras. E eu, na minha vida convencional, vestida de forma convencional, também rezo por mim e por todos os meus vizinhos e companheiros de rua e aprendo a cada dia a conviver e a aceitar a realidade da Major Sertório. (21/05/2002)

Marta Cavallini é jornalista e vive na Rua Major Sertório há dois anos. Natural de Botucatu, confessa que sempre teve medo de morar em São Paulo, mas a vida no Centro da cidade fez com que perdesse o preconceito.

Fonte: Sampacentro

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